Fatores inflamatórios

Em 2017 a OMS publicou uma pesquisa sobre as duas doenças psiquiátricas mais comuns que afetam a população mundial: transtornos depressivos e ansiosos. De acordo com a pesquisa, o Brasil lidera a prevalência de transtornos de ansiedade e ocupa o quinto lugar em depressão, com taxas de 9,3% e 5,8% respectivamente.

Atualmente, considera-se que os transtornos depressivos são originados de estresses diversos vivenciados, sendo também associado à complexa interação de processos biológicos (resposta ao estresse e à fatores neurotróficos), psicológicos (personalidade e relacionamentos interpessoais), ambientais (dieta, álcool, e ritmos biológicos), e por fim, genéticos, que resultariam na depressão.

Todos estes fatores parecem desencadear a ativação de uma resposta inflamatória tanto perifericamente quanto no cérebro, levando à hiperativação do Sistema Nervoso Simpático e do eixo Hipotálamo- Hipófise-Adrenal.

Tendo em vista esta interação, desenvolveram-se modernas teorias correlacionando a depressão com o sistema psisco-neuro-endocrino-imunologico, demonstrando a complexidade fisiopatológica e multifatorial inerente aos transtornos depressivos.

O desajuste neste sistema pode resultar no aumento das morbidades cardiovascular e cerebrovascular, e do risco de síndrome metabólica, além da resposta imunológica ser comprometida.

A ideia de correlacionar os transtornos depressivos com estresse crônico e a resposta inflamatória não é mérito dos estudos científicos do século 21. Na publicação de Hans Selye, de 1936,sobre “síndrome de adaptação geral”, que foi posteriormente ampliada e corroborada para os transtornos psiquiátricos pelos estudos de Kessler,em 1997, tal autor já havia sugerido que o estresse, definido como uma ameaça real ou implícita à integridade psicológica ou fisiológica de um indivíduo, pode desempenhar um papel fundamental nos transtornos mentais, tanto como fator causal, quanto resultado do pensamento desordenado e das relações interpessoais interrompidas.

Neste processo de resposta ao estresse, os mediadores hormonais primários mais comumente observados são os glicocorticoides (principalmente o cortisol), e as catecolaminas.

Os efeitos produzidos por estes hormônios estão correlacionados com proteção, porém podem ser nocivos ao corpo. A curto prazo, eles são essenciais à adaptação, à manutenção da homeostase e à sobrevivência. Neste contexto nasce o conceito de “alostase”, que se refere à capacidade do corpo em ganhar estabilidade em meio à mudança.

Isso se relaciona à estabilidade adquirida por meio de processos fisiológicos variáveis que precisam ser sempre mutáveis para permitir respostas comportamentais apropriadas ao nosso ambiente.

No entanto, períodos prolongados de exposição ao estresse crônico, níveis elevados de mediadores hormonais primários, e por fim, o “desgaste” fisiológico dos ciclos alostáticos parecem ter um custo que acelera o processo da doença.

Este desgaste causado pela exposição ao estresse crônico é conhecido como “carga alostática”, cujo aumento resulta na resposta imune enfraquecida, na doença acelerada, na hipertensão, na doença cardíaca e na depressão.

Gianna Guiotti Testa
Medica Psiquiatra (responsável técnica da Clínica Opy Saúde)
CRM DF- 15231