Onde está o poder?

Estes dias voltando do Rio de Janeiro, onde atendo em conjunto com a equipe do serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência na Santa Casa, fiquei pensando sobre um caso que atendemos, que me levou a uma reflexão maior sobre como estamos educando nossas crianças e jovens, e que tipo de cidadãos estamos preparando para o futuro do nosso planeta.

Em um dos principais ambulatórios de referência e excelência em tratamento psiquiátrico nesta faixa etária, onde uma consulta pode levar meses para ser agendada (o ambulatório é gratuito), após a discussão e supervisão entre os profissionais que acompanharam o caso, chegamos ao diagnostico: falta de limite.

Geralmente as crianças e adolescentes ali atendidas, já passaram por médicos de outras especialidades e até mesmo psiquiatras, e nenhum deles teve a segurança de descartar a existência de uma doença ou transtorno, e apenas fazer a orientação necessária aos pais: Exerçam o poder de vocês, eduquem.

Sim, os sintomas não representavam um transtorno, como outros tão comuns ali: Ansiedade, Depressão, Bipolaridade, Autismo, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtornos de Aprendizagem, e sim a dificuldade dos pais ou responsáveis em educar e colocar os limites necessários para preparar filhos autônomos e felizes.

Em outro atendimento recente, recebo um jovem rapaz policial, que tinha acabado de fazer o pesado treinamento do BOPE, quinze dias reclusos passando por diversas simulações de operações e treinamentos técnicos adversos, que resultou até em um estado gripal do mesmo.

Esse jovem policial entra no consultório com seus dois filhos meninos, em idade pré-escolar, quase quebrando até mesmo o lustre da sala, tamanha inquietação e falta de limites. Foi preciso só eu falar de forma assertiva com os meninos, e só então conseguimos terminar a consulta. É claro que esse pai saiu do consultório não somente com a receita dos remédios de gripe, mas também com orientações sobre a necessidade de exercer o poder de pai.

O poder dos pais ou responsáveis, tão necessário para delinear e nortear as ações das crianças, parece que virou motivo de medo ou até mesmo preguiça, cansaço, tabu, vergonha. O poder que educa, orienta, exercido de forma amorosa, mas firme, assertiva.

Assertividade é uma palavra cujo conceito está no meio do significado de passividade e agressividade. Portanto, quando digo que sou a favor do poder, não sou a favor da agressividade e violência, e sim do poder necessário para formar cidadãos que no futuro vão estar preparados para agir quando estiverem com o poder nas mãos.

O poder dos professores então, este ficou perdido em algum lugar do passado, mas este é um assunto tão importante que deixo para outro dia…

Lembro até hoje da minha infância de uma frase que minha irmã tinha na parede da escrivaninha dela:

”Para fazer o bem, o poder é fundamental” (Papa João Paulo II)

Só depois de adulta entendi o significado dela…

Gianna Testa
Médica psiquiatra.

Imagem: Houston Family Magazine